Fonte : Revista Panorama Rural –A revista do Agronegócio,páginas 32 a 35
Ano XII- nº. 131-Janeiro/2010
Sementes do Amanhã
"Já vi macaco cair de árvore, mas eu não caio!" Assim diz Dona Maximina com as mãos cheias de semente e debruçada tranquilamente sobre um galho, na copa de um pé de "falso barbatimão", nome cientifico: Cácia leptófila.
Maximina Aparecida de Queiroz, com 54 anos, escala árvores de até 40 metros de altura em busca de sementes de espécies nativas que vendidas, ajudam no sustento da família. Não é fácil, segundo ela.
"Colher sementes não é pra quem pensa no dinheiro, é pra quem faz de coração. O jovem não quer entrar na mata, é preciso gostar, conhecer a planta, aprender a identificar e a trabalhar com a semente", explica.
Dona Maximina e sua companheira de trabalho, Claudete, caminham cinco a dez quilômetros para encontrar determinadas espécies. Na maioria das árvores as sementes se encontram nas copas, então é preciso escalar. Em até oito metros elas não usam equipamentos e, acima disso, sobem com o auxílio de uma corda e equipamentos de escalada.
Espinhos – Muitas árvores estão cobertas de espinhos e isso dificulta muito, principalmente o manuseio do podão, uma ferramenta que corta a ponta do galho onde geralmente encontram-se as sementes.
"Não podemos colher tudo o que a árvore produz, temos que deixar a maior parte, a semente precisa cumprir o seu papel: se perpetuar e alimentar os bichos" garante Maximina.
E, finalmente, a etapa de beneficiamento, nome usado no processo entre colher e deixar em ponto de germinação. Cada espécie de semente recebe um determinado tratamento até chegar ao viveiro. Lavagem, secagem no sol e na sombra, descansar, limpar, armazenar, embalar, etc.
Em até oito metros elas não usam equipamentos e, acima disso, sobem com o auxílio de uma corda e equipamentos de escalada
Renda – Das árvores da Mata Atlântica na região da bacia do Alto Paranapanema entre as cidades de Capão Bonito, Ribeirão Grande e Guapiara no interior paulista, trinta e dois coletores garantem uma boa parte da renda familiar. A prática é uma opção aos moradores de áreas rurais, próximos às matas ,que lucram em torno de um salário mínimo por mês e dependendo da dedicação ,podem faturar muito mais.
A idéia nasceu há cinco anos. Seu Zé Ferreira prestava serviços à Bio Flora, empresa de reflorestamento, ajudando no plantio de mudas para recuperação de uma área de compensação ambiental da Cimento Ribeirão em Ribeirão Grande. Curioso, Seu Zé questionou a origem das sementes, procurou o engenheiro florestal e a Associação Ecoar Florestal, que forneceu as mudas nativas, e demonstrando conhecimento no assunto, ofereceu algumas sementes. A sugestão foi aprovada.
Apoio – A Associação Ecoar Florestal, organização não governamental, atua há 13 anos no setor de conservação florestal e em projetos socioambientais, visando a geração de renda o proprietário rural. Com apoio da Votorantim Celulose e Papel, trabalha junto com o grupo para a sustentabilidade da Rede Comunitária de Sementes Nativas que também ajuda no preparo e na estrutura dos coletores, com cursos de capacitação, uso do GPS, beneficiamento e escalada.
Clientes
Serviço atrai empresas que buscam adequação ambiental
Hélio Porangaba, um dos técnicos da ONG, afirma que mais de 180 espécies são coletadas durante o ano e comercializadas com a finalidade de reflorestamento. Há aproximadamente cinqüenta clientes cadastrados, dentre eles, a SOS Mata Atlântica, a VCP Celulose e Papel, Iandebo e a própria Ecoar Florestal com seu viveiro de mudas. No geral são ONGs, mineradoras ou grandes agricultores, empresas que buscam uma forma de adequação ambiental. As sementes são usadas na recuperação de áreas degradadas e restauração florestal.
Novas comunidades interessadas em participar do projeto procuraram a ECOAR, porém Hélio lamenta não ter apoio empresarial, sendo uma oportunidade de responsabilidade socioambiental preparar novos grupos de coletores. O investimento com os cursos, ferramentas e, principalmente, os equipamentos de escalada é muito alto.
Uma possível parceira com a IPEF, Instituto de Pesquisas de Estudos Florestais, que trabalha com pesquisas florestais, planejamento, comercialização de mudas e sementes, promete amenizar alguns desses problemas. A ONG dispõe-se de logística e de tecnologia de beneficiamento. Espera-se o aumento de clientes e, conseqüentemente, o crescimento da rede de coletores, dando oportunidade às comunidades vizinhas que tenham interesse e vocação.
Mais informações sobre o Projeto Sementes do Futuro